Entrevista com um tradutor: Leonardo Pinto Silva

maio 12, 2020

Como disse uma vez José Saramago, são os autores que fazem as literaturas nacionais, mas são os tradutores que fazem a literatura universal. O livro é uma expressão artística feita por meio de de palavras, estas ganham vida e tomam conta de nossa imaginação. Eles são capazes de nos levarem para qualquer lugar do mundo, mas são os tradutores que, na verdade, fazem isso de fato.

Já parou pensar que para que você lesse livros de autores estrangeiros em sua língua natal, alguém teve o trabalho de traduzir aquela expressão artística em formato de texto? E traduzir não se trata apenas verter palavras para outro idioma, se trata, principalmente, de traduzir questões mais complexas como a significação, o contexto, as figuras de linguagem e a cultura.

Com o intuito de dar voz a esses profissionais que tem o trabalho minucioso de passar um livro de um idioma para o outro, convidamos o nosso querido tradutor Leonardo Pinto Silva para uma pequena entrevista. Nela, ele nos revela um pouco sobre sua trajetória e curiosidades do seu ofício. 

Com uma carreira extensa, cheia de traduções marcantes, recentemente Leonardo traduziu dois novos lançamentos da Letramento, os best-sellers internacionais: Anoréxica e O Poder do seu Cérebro

Não conhece ainda como funciona o trabalho de um tradutor? Confira essa entrevista: 

1. Você sempre quis ser tradutor? Como iniciou sua carreira nessa área?

Nunca achei que fosse ser tradutor, muito menos do norueguês. Quando fui estudar na Noruega, já se vão mais  de 30 anos, um amigo até me provocou: "Por que você foi escolher logo um país desses? O que vai fazer com esse idioma depois que voltar para o Brasil?". 

Sou graduado em Comunicação Social, fui jornalista de batente, fiz um mestrado em Administração de Empresas e estive publicitário durante um período, mas nada disso me satisfazia completamente. Havia traduzido um livro para a Companhia das Letras muito tempo atrás, a autobiografia do explorador Thor Heyerdahl, Na trilha de Adão. O tempo passou, saí de Fortaleza, onde nasci, para morar no Rio e depois em São Paulo; soube, através de um amigo em comum, que a mesma Companhia queria reeditar O mundo de Sofia traduzido do original e havia perdido meu contato. 

Desde então, já se passaram mais de dez anos da retradução do clássico do Jostein Gaarder e traduzi uns quarenta títulos do norueguês para o português. Foi tudo absolutamente ao acaso. Com o passar do tempo, a tradução foi se superpondo às outras atividades que exercia e hoje ocupa a maior parte do meu tempo. Pode não remunerar tanto quanto a publicidade e certamente é menos imediatista que o jornalismo, mas me completa. Hoje posso dizer que gosto do que faço.

 2. Você trabalha com a tradução em que línguas?

Falo e traduzo de outros idiomas, mas a razão pela qual me concentrei no norueguês é em parte afetiva e em parte mercadológica. Sou fluente no idioma porque vivi na Noruega, me sinto à vontade com ele. E, naturalmente, gosto do português também, procuro tratá-lo com o carinho que ele merece. Há poucos brasileiros que dominam o norueguês, menos ainda tradutores em atividade. 

A Noruega tem um programa muito ativo de fomento literário, encabeçado pela Norla, uma agência estatal que subsidia traduções e oferece uma série de outras vantagens a editoras, tradutores, agentes e autores. A custo muito reduzido, as editoras têm à disposição uma literatura de excelência, e os tradutores podem ganhar um pouco melhor. É um ganha-ganha, sobretudo em tempos tão bicudos para o mercado editorial.  Uma pena que o interesse das editoras brasileiras não seja maior, por motivos que não consigo entender. Existem muitos títulos bons que acabam ficando fora do alcance do leitor brasileiro.

4. Como funciona o trabalho de um tradutor? Consegue resumir para gente?

É um ofício solitário e requer muita concentração. É muito penoso nesse aspecto. E a remuneração não é lá essas coisas, mesmo com o subsídio pago pela Noruega. No entanto, é uma atividade extremamente prazerosa para quem é curioso e tem a mente inquieta, disposta a aprender sobre qualquer coisa.  

Não tenho uma rotina pré-estabelecida, depende muito do livro. Sendo pai de dois pré-adolescentes, em geral gosto de traduzir especialmente à noite, quando tudo está mais quieto e a rotina do dia a dia interfere menos no trabalho. Gosto de ser levado pelo enredo: ouvir a música, admirar a paisagem, explorar o contexto e aprender mais sobre o personagem, tenha ele existido de fato ou não.


5. Na sua opinião, qual é a maior responsabilidade do tradutor? E qual a maior desafio no dia a dia?

A responsabilidade maior é traduzir o sentido do que disse o autor sem se sujeitar às amarras da literalidade. A margem de manobra desse intervalo é muito estreita, e não respeitá-la pode ser desastroso. Um professor certa vez disse que a melhor tradução consegue sintonizar o "idioma ideal" em que o autor escreveu, algo quase mediúnico, diria eu se não fosse tão racional. Mas é verdade. Uma vez encontrada essa sintonia, é como se o texto inteiro se descortinasse na nossa frente, no português mais fluente e natural possível, ainda que o original tenha sido escrito noutro idioma.

6. Existe algo "mais difícil" ou "mais fácil" de se traduzir?

Considerando a Noruega, um país muito diferente do Brasil em vários aspectos, dá um pouco mais de trabalho ambientar cenários. Ninguém aqui se vê às voltas com paisagens congeladas, por exemplo. Os hábitos alimentares são outros. O país é  geograficamente muito acidentado, e a natureza é frequentemente um personagem do enredo. É uma realidade muito diferente da nossa, a começar das diferenças sociais. Aproximar a realidade nórdica de um país tropical como o nosso requer um algo mais. 

7. O que traduzir significa para você?

Gosto muito de cozinhar e certa vez li que traduzir é preparar um prato estrangeiro com ingredientes locais. Achei a metáfora excelente. É construir pontes. É abrir a cabeça para outras possibilidades de enxergar, de pensar e de agir. E é, sobretudo, desbravar novos mundos. 

8. Sua profissão de tradutor influenciou, de alguma maneira, seu ponto de vista como leitor de livros?

Certamente me abriu os olhos para especular como e por que aquela obra foi traduzida assim, quais alternativas o tradutor teria e por que escolheu justo aquela, o que faço bastante acompanhando legendas de filmes, aliás. 

Como tradutor, tenho o máximo respeito por legendadores e intérpretes simultâneos, que fazem tudo que faço e mais um pouco dispondo de uma fração do tempo. Meu gosto literário sempre foi muito eclético. Ando me concentrando muito em livros de não-ficção porque hoje em dia a realidade está muito difícil de ser alcançada pela imaginação.

9. Qual o seu tipo de obra favorita para traduzir?

Não  tenho — desde que seja algo instigante e de qualidade, como costumam ser os títulos nórdicos em geral e noruegueses em particular.

10. Recentemente, você traduziu 2 novos lançamentos da Letramento "O Poder do seu Cérebro" e "Anoréxica". Qual foi o mais difícil de traduzir e o que você gostou mais da experiência?

Do ponto de vista da tradução são dois títulos de não-ficção muito similares, mas o livro da Ingeborg Senneset, Anoréxica, é mais autoral: é um relato em primeira pessoa de alguém que venceu uma doença insidiosa e se expões de uma forma desconcertante. Acho que a peculiar franqueza que caracteriza os noruegueses fica bem demonstrada para o leitor brasileiro. Além disso, o prefácio é um ensaio brilhante escrito pelo psiquiatra Finn Skårderud esmiuçando essa doença contemporânea que precisa ser melhor compreendida.

 O poder do cérebro, da neurocientista Kaja Nordengen, é um livro certamente menos chocante e uma leitura mais leve, mas não menos instigante. Ambos foram escritos por mulheres, e gosto de pensar que textos femininos requerem um adicional de alteridade para um tradutor homem. Eu bem que tento, mas nem todo mundo é Chico Buarque.

11. Para finalizar, qual seria seu conselho para jovens acadêmicos e estudantes que pretendem seguir a carreira de tradutor? Como se especializar e o que fazer?

É uma pergunta muito difícil de responder. Não me vejo tendo cursado tradução desde o princípio — fiz cursos de especialização em tradução, mas minha formação original é outra, ainda que afim.  Tive sorte, fiz escolhas certas, trabalho com um idioma menos comum, de um país rico, que dá à literatura seu devido valor, e tenho uma família que me apoia no que faço. Ao mesmo tempo, com o avanço da inteligência artificial,  a tradução vai se distanciando cada vez mais da artesania e  da paixão, sobretudo em textos não-ficcionais. 

Isso somado à quebra do mercado de varejo de livros brasileiro não não faz do cenário algo especialmente promissor. Dito isto, há excelentes cursos acadêmicos de tradução, sobretudo na região Sul do Brasil. Aqui em São Paulo, a Casa Guilherme de Almeida, em parceria com a Faculdade Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é um um destino obrigatório, eu diria.


Curtiu a entrevista? Comenta aqui embaixo o que você também gostaria de saber sobre tradução!


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