Maternidade e home office em tempos de COVID 19

maio 05, 2020


Com o significativo aumento da prática do home office (que, ao que tudo indica, deve se manter em níveis mais altos mesmo quando a crise não estiver mais no auge) tenho visto muitas comemorações deste momento como a oportunidade que precisávamos de “provar” que as mães podem ser produtivas online, mesmo com os filhos em casa. 

De outro lado, há quem aponte o aumento da sobrecarga e da exaustão diante de um cenário em que a vida dentro e fora do trabalho parece não ter mais fronteira alguma. Há também quem debata a importância de empresas adequarem-se de forma mais leve à não tão nova novidade de que crianças fazem parte da vida e precisarão ser de alguma forma integradas ao cenário em tempos em que o trabalho invadiu a casa. 

Mas será que é suficiente aprendermos a lidar com a criança que interrompe a reunião para fazer uma gracinha, ou com o filhote gritando "manhêeeeeeee terminei!" enquanto você atende o cliente? 

Precisamos cuidar com certos discursos que despolitizam o debate trazendo soluções simples para problemas antigos e complexos. 

Conversando com mulheres e acompanhando as minhas pesquisas sobre o tema, percebo que as "gracinhas" que acontecem com os pais acabam sendo celebradas e divertidas, mas continuam sendo exceções. A maioria das mães tem me relatado que continuam tendo que se encaixar à rotina dos maridos enquanto elas rebolam para cuidar da casa e dos filhos e trabalhar no "tempo livre". 

Mais uma vez, o pai interrompido é fofo, enquanto a mulher está precisando "ser mais leve com a coisa toda." 

A questão não é a gracinha ou a pequena interrupção. Vai muito além! 

Para se fazer home office (com filhos ou sem!) é preciso concentração, tempo de qualidade e diminuir o número de interrupções frequentes.  Não apenas quando você está em reunião com equipe, chefes ou clientes. 

Fazer home office com filhos em tempos de pandemia e isolamento social é ainda mais desafiador. Não é o home office comum! Não tem para onde correr e são crianças (e adolescentes) confinadas e cheias de energia para gastarem! Elas também estão sofrendo! (e muito!) 

Milagre é chegar ao fim do dia sã e ainda conseguir produzir e ser criativa e atender bem clientes e chefes. Aí bate a culpa, a sensação de incompetência, a frustração, a raiva e a sensação de estar fazendo tudo errado, o que a faz ficar ainda mais nervosa durante o dia com as crianças – que costumam devolver com mais bagunça e estresse.

Falei sobre este ciclo no meu livro "Gestar, Parir, Amar" e o considero a razão do fracasso de muitos empreendimentos maternos e da frustração das que retornam ao mercado ou de quem conclui que é melhor trabalhar em casa sentindo-se fracassadas, incompetentes e improdutivas. 

“‘Se fulana consegue, por que eu não consigo?´ elas me perguntam.

Vejam, embora de fato esta seja a realidade de algumas, acreditem: elas são minoria e, normalmente, costumam ter privilégios que fazem toda a diferença nessa gestão. Não quero, de maneira alguma, menosprezar o esforço de quem gerencia um negócio trabalhando em casa e cuidando de filhos sem ajuda externa, mas precisamos olhar para as questões estruturais envolvidas para não cairmos na falácia da meritocracia e acharmos que todas que não conseguem equilibrar esses pratos são fracassadas, incompetentes ou não se esforçaram o suficiente.”  

Lembrando que aqui estamos falando apenas de mães com alguma rede de apoio e com a possibilidade de fazer home office, ou seja, isso é ainda mais duro e cruel com mães solo, periféricas, que estão na informalidade, etc. 

Ou seja, se não houver uma mudança cultural quanto às responsabilidades de pais e mães pelo cuidado e das empresas e do poder público pela sua cota de corresponsabilidade social, o home office, que à primeira vista poderia surgir como solução, acaba reforçando distorções.

O que você acha? Como está sendo sua experiência com home office nessa pandemia? 

Tayná Leite é autora do livro Gestar, Parir, Amar: não é só começar. É coach e mentora de mulheres, palestrante, advogada, blogueira, escritora, mestranda em Sociologia. Também é viciada em café e em problematização, mãe do Cacá e feminista militante. Ama estar entre mulheres e acredita que é por meio delas que o mundo se tornará um lugar melhor. Colunista do HuffPost Brasil e da revista Azmina desde 2016, escreve sobre maternidade, política e feminismo.

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